O Saldo Não É a Obra
Gastar, construir, entregar. Em 2025, as contas públicas superaram a meta e os ministérios investiram dois terços do que prometeram. E no programa criado para dar casa a quem não a pode pagar, a meta deixou de contar casas entregues.
«Um Orçamento diz o que um país quer. Uma Conta diz o que um país fez com o que queria.»
Gastar o dinheiro, acabar a casa e entregá-la são três verbos diferentes. Os dois primeiros enchem relatórios; só o terceiro cumpre o objetivo, que é pôr uma família dentro de casa. Entre o primeiro e o terceiro cabe uma distância que nenhum comunicado mede, e que devia ser medida pela Conta Geral do Estado.
E depois a Comissão foi contar. A 31 de dezembro de 2025, o instituto da habitação reportava 200 casas do programa entregues a famílias, todas promovidas por ele. Dos municípios e entidades locais, ouvidos por inquérito, nenhuma entrega registada. Outras 404 estavam concluídas, sem entrega registada. E 2.194 continuavam em obra ou em aquisição. Duzentas portas abertas, a seis meses do prazo.
O investimento dos ministérios, descontadas as parcerias rodoviárias, cresceu quase um terço face a 2024 e, ainda assim, ficou um terço abaixo do prometido, escreve o Tribunal de Contas: 2.294 milhões de euros. Por cada três euros que se prometeu investir, investiram-se dois.
O Estado presta contas do dinheiro. Devia prestar contas, também, do tempo que obriga os outros a esperar.
Miguel Sousa Soares é economista e analista de geoeconomia e inteligência artificial, com mais de vinte anos de experiência em estratégia e corporate finance. Escreve na Visão, no Expresso, no Jornal de Notícias e no Correio da Manhã e comenta inteligência artificial na NOW, às sextas-feiras.