O Preço de Ficar
Em menos de três anos, o crédito à habitação passou de um decréscimo a um crescimento de 11% ao ano. O nível da dívida ainda não assusta. A direção, sim. E o que falta ao país não é crédito. É casa.
«Na Guarda, há casas à espera de gente. Em Lisboa, há gente à espera de casa. Entre as duas, o Estado pôs crédito.»
Um país pode endividar-se para construir. Portugal está a endividar-se, sobretudo, para pagar mais caro pelas casas que já existem.
Para perceber porquê, basta pôr duas cidades lado a lado. Na Guarda, o agregado fiscal que está a meio da tabela declarou, em 2024, 16.769 euros, já descontado o IRS. Em Lisboa, 16.500. Não é um salário: é o rendimento de um agregado fiscal. Mas mede-se da mesma maneira nas duas cidades. Com o crédito de hoje, esse rendimento chega, em ambas, para uma casa de cerca de 104 mil euros. Na Guarda, onde o metro quadrado custa 955 euros, são 110 metros quadrados. Em Lisboa, onde custa 5.082, são 20. Entre uma casa de família e uma sala. Só que a Guarda perde gente: o distrito ficou com menos 18 mil habitantes entre os Censos de 2011 e de 2021.
O rendimento é o mesmo. O país não.
E foi a entrada, só a entrada, que o Estado decidiu garantir.
Miguel Sousa Soares é economista e analista de geoeconomia e inteligência artificial, com mais de vinte anos de experiência em estratégia e corporate finance. Escreve na Visão, no Expresso, no Jornal de Notícias e no Correio da Manhã e comenta inteligência artificial na NOW, às sextas-feiras.